(Para alguém que não sei se existe para além dos limites da minha cabeça… redundâncias em torno de um Bairro Francês)
Tens a intensidade de um final de tarde vivido e sentido em New Orleans.
Os sons entranhados de soul a retombar em cada melodia…
As fragrâncias de especiarias que aromatizam a humidade no ar…
O calor a traduzir na pele a textura das vontades da alma, no corpo…
O amargor do álcool cortado pelo paladar de uma dulcificada boca alheia…
A cor rubra da noite a manchar gradualmente o horizonte, criando expectativa…
New Orleans… Apenas, New Orleans.
Como posso eu desejar ser abraçado por algo tão grandioso e violento?
Talvez não deva deixar respirar esta ilusão para além dos limites raianos da minha imaginação.
Que se foda New Orleans que se foda o Bairro Francês!
Terei sempre New-York, terei sempre o Harlem!
Julho 1945
Sol Mata Lua.
Preciso que o Sol brilhe mais e mais alto no pico da torre do porto de abrigo que há em mim. Quero senti-lo estalar-me a pele de calor, para depois me refrescar de corpo e alma nas águas da foz deste rio de Ouro e Laranjas que carrego no peito.
Out. 2010
Sol Mata Lua.
Há dias em te saem papoilas pelas mãos fora e levantas os braços e atiças o mundo com a tua fragrância - no entanto, distintos são aqueles (dias) em que te limitas a guardar os dedos atrás das costas e de olhos fechados ergues a cabeça em direcção ao sol na expectativa de que outros, mais e muitos aromas, te elevem a mente e, num sorriso que se esboça, transportem a imaginação para longe...
A luz que se respira numa fotografia... é um cheiro que permanece em cada fotograma.
Set. 2010
Sol Mata Lua.
Abri o peito como um livro e dele rasguei página ante página fragmentos de pele, folhas desta história timbrada a óxidos do ferro e argila, na vontade de esquecer o que a noite esconde para lá do olhar - Vi diluir a tinta da casca de mim mesmo no negro lavado de chuva do asfalto e de gazua falsamente empunhada na mão tranquei o livro... até mais ver.
Maio 2010
Sol Mata Lua.
Correntes que se querem capazes de ancorar a atenção de quem queremos cativar ao lastro do nosso bote, que à deriva se anuncia em picos de onda e desliza ao mais profundo azul, sobre imagens descoladas de portas de frigorífico - proclamando delírio da toma da hóstia carnal, em fragmentos de sons ilusórios, na escuridão da mão que se estica sem assinalar a dádiva das palavras... poucas e parcas, na razão de quem se quer dar a conhecer.
Vou e venho como as andarilhantes e anunciadas ondas do mar que nos escapam por ter os pés alicerçados em terra firme na demanda da ilusão que se quer real.
Porque não trocar as correntes, as imagens e os sons por palavras? Porque não trocar os interesses pelos saberes? Porque não procurar...?
Maio 2010
Sol Mata Lua.
No centro, estátuas de divindades metamorfoseadas aparentemente imóveis. Em círculos em seu redor o tempo avança lentamente. Quão mais distante se encontra das divindades, mais rapidamente o tempo avança – círculo após círculo, fracção de segundo após fracção de segundo, o tempo adianta-se à razão e tudo se torna mais rápido e fugaz.
Nas ruas, a divindade estava em si e o poder de parar o tempo acompanhava-o passo após passo. Sem caminhar mais um centímetro que fosse – parou. Libertou do peito a mala que carregava a tiracolo, repleta de preocupações e papéis que o prendiam a um mundo rápido de consumo, alheio à razão da existência.
Sem desistir, desprendeu os braços de movimentos autómatos e deixando-os pender ao longo do corpo – observou o mundo que o rodeava. As pessoas, os carros, as luzes de néon. Fechou os olhos, ergueu os braços e escutou. Motores, murmúrios de gente que passa, pregões e a ligeira brisa que arrasta o lixo no chão.
Abriu os braços ao céus, libertou o corpo e vestiu a sua divindade – o tempo parou… em círculos em seu redor o mundo era rápido – mas ao centro de si apenas imperava o marfim parado do tempo.
Os sons aumentaram de volume, as luzes iluminaram a presença de um par de olhos fechados… depois, o silêncio.
A chuva começou a cair e enquanto em seu redor todos corriam para se abrigar, no centro da rua todo ficou imóvel.
Sozinho, sentiu lentamente cada gota de chuva demorar mil e um anos a descer até lhe tocar na pele. Lentamente o céu desfez-se em transparente líquido e uma após uma, cada gota de céu lavou-lhe o corpo e a alma parada – quedou-se no centro da rua, no centro do tempo, no centro de si.
2010
Sol Mata Lua.
Uma voz que acidentalmente se envolve em afinada e doce revolta rouca, uma guitarra que soa simples ao ritmo de cada acorde e um par de olhos vulgares que, entre cada verso cantado se fecham e fazem os meus com "outros, tantos e muitos mais" olhos profundos sonhar... os olhos da vida... os olhos do mundo.
Março 2010
Sol Mata Lua.
Subiu a rua estreita e escura até aos portões férreos que estendidos ao alto e lavados pela chuva lhe travaram o passo secreto de entrada no templo.
Profanou o sagrado deslizando por entre as grades, deixando o portão intacto à sua presença - do lado de fora o homem, do lado de dentro apenas um ser e os seus sentidos...
Um Plátano sedia ao adro da igreja toda a sua copa e toda a sua fragrância. Na sua sombra as gotas de chuva eram mais espaçadas e grossas e o cheiro a terra e verde mais intenso.
Abraçou-o e segredou-lhe um tesouro que enraizou com as mãos na fina fronteira de húmus e folhas caídas que cobriam o regaço da árvore centenária - era um segredo de partilha de sons e pedaços de cobre.
Ao longe murmúrios de gente que passava sem dar pela sua presença...
Encostou o corpo ao fálico pelourinho que ladeando o Plátano fazia frente à porta da igreja... Acendeu um cigarro... A pedra do isqueiro estalou iluminando o breu.
No tempo que durou aquele travo de nicotina, recordou tempos idos e vividos naquele lugar… O mesmo Plátano, o mesmo pelourinho, a mesma igreja, num adro de memórias em iniciáticas tardes de Setembro à 2511 anos atrás… Segredos contados ao tronco e às raízes… suspiros, desejos e esperanças despontando no verde, no laranja no vermelho rubro de cada folha…
Lavou o rosto na água da chuva e partiu.
.lamina onier od megaugnil a ralaf ratnet a ,ortuo o e ele ,uE ««
Nov. 2009
Sol Mata Lua.
.oproc o malabme e amla a maval euq saugà san osrembus ,odnum od arof ed odal od em-odnahcef - erroc euq oir oa em-raçnal e sarrama ratroc ,ortneda atserolf alep ùn rerroc ecetepa em òs euq me said àH ««
Dez. 2009
Sol Mata Lua.
Era Junho e o santo posto no altar era São Pedro. Nessa tarde vendia o que me escorre das mãos na Rua mais Direita da cidade onde moro. Por todo o lado escutavam-se vozes entoar palavras com sabor a África e Oriente, misturando-se com os cânticos tradicionais da gente serrana que me viu nascer e crescer de menino a homem.
Abandonei por minutos a minha arte à solidão das pessoas que cruzavam a rua e divaguei por entre elas.
No caminho de regresso passei por Ele... dei-lhe a mão ao dorso e senti o seu pêlo escorrer pelos meus dedos. Aquele consolo macio na mão tocou-me na alma e sorri. És doce, disse-lhe na forma mais terna e sincera possível.
Voltei para o meu mundo de arames de cobre e prata, de folhas de alumínio e chapa zincada, vidros e missangas.
Chegara a vez dele passar por mim... Olhava perdidamente toda e cada uma das pessoas nos olhos, como se lhes quisesse dizer algo. Daí a nada alguém, de passo lento e com o coração mais acelerado do que as pernas lhe permitiam, alvoroçava-se em torno Dele como uma nuvem de pássaros debicando a sua atenção. Queria alimentá-lo.
Foi aí que percebi que ninguém lhe tinha dado um nome, uma taça de comida ou água, afecto, campos para correr livre e uma morada para a qual regressar quando a hora se fizesse tardia e o cansaço lhe consumisse o corpo.
Nesse momento, em frente à Capela que dá o nome ao santo e que se faz Nova ao final do mês de Junho, quis tê-lo para mim... O galope da paixão inflamou o meu coração, as mãos ardiam com vontade de o afagar e os meus olhos nos dele tinham vontade de se diluir em carinho. Num rompante enlacei as nossas vidas pelo mais resistente junco e trouxe-o para a casa que se tornou sua.
Adormeceu envolto pelo céu estrelado da noite que se fez longa e chegada a manhã renasceu - de nome Pedro, em homenagem a alegoria religiosa e com morada certa no bilhete de identidade do reino animal.
Os dias foram passando e o laço de junco apertou os nossos corpos num abraço entre homem e animal cada vez mais profundo. Entre caminhadas à beira do Rio que Corre e seguindo os trilhos da Raposa nos pinhais que outrora se escureciam pelo vapor dos comboios aprendemos a falar a língua um do outro até que... começamos a falar o nosso próprio código... vocal, corporal e intensamente emocional.
Dez. 2009
Sol Mata Lua.
Em fase letárgica aguardo que numa volta rodada o mundo se incline sobre o Sol e me traga a luz de que preciso para me sentir mais eu - Hiberno!
Dez. 2009
Sol Mata Lua.
A redundância do amor resume-se a um fatal erro de comunicação - o de só escutarmos do mar o que queremos que ele nos diga...
Nov. 2009
Sol Mata Lua.
".sotreba e sopmil siairosnes sianac arap otutitsbus hà oãN" ««
(Autor desconhecido)
21 Agosto 2009
Sol Mata Lua.
...ieracot acnun meuq ed oproc o oicnêlis on ama e - mim ed sias euq uT ó ,egnol arap ajaiV ....oçehnoc oãn euq mèugla moc etrap saled e soãm sa arap errocse açebac an ogart euq o E ««
9 Set. 2009.
Sol Mata Lua.
A noite instalou-se como favas que se descascam e aquecem na fervura de uma água que se engrossa tardia e lentamente.
Palavras, com sabor a menta, vinagre, nicotina e vinho que nos Dão e nos bebe boca a dentro, para que espírito fora os seres se libertem e se revelem, brotam por entre o crepitar da madeira e do metal que nos forra e sustenta.
As mãos marcam-se com X e actos de intuição. Truques na brasa e na cinza de mais um tronco que arde numa fogueira que se alimenta de dois e de muitos mais, nunca demais.
A caixa ressonante, encostada ao peito, costura acordes que se misturam com palavras que se falam, se cantam, se calam e se sentem.
A meia-luz, a mão que me toca, mostra-se de mulher e em mais um trago o meu corpo rouba o calor da fogueira que começa a querer desistir de arder. Um outro fogo renasce... em mim.
Sinto-me nela, num sono e num sonho que me inundou a vida sem arrependimento. Os olhos alcoolizados tomaram o seu corpo no meu, sem aspiração de que este salto entre os arcos da ponte que a atravessam se torne real.
Queria sentir a profundidade do leito do rio que nela corre, o gemido sibilino das suas águas escavar a pedra do meu corpo horas a fio. Acordar no carinho e calor do seu areal. Naufrago nas suas margens.
Numa guerra de sonos napoleónicos e trilhos romanos aspirando a bênção de Baco adormeço sozinho - esqueço-me de mim e do mundo.
Acordo entre patos soltos e peles de coelho, no meio de um dia demasiado súbito e vespertino. Adormeço uma vez mais - desta vez em ti, agora que estamos acordados e regressaste.
Deixo que a boca cale as palavras e sinto o sabor dos arcos que despontam das margens dos teus lábios.
28 Abril 2009
Sol Mata Lua.
.erpmes ed iap uem roma moc et-oreuQ
.iap mu omoc mim me satsE .rizudart eugesnoc oan arvalap ad mod o euq e amla ad mev euq o saled zevarta rasserpxe a em-maranisne e sahnim sa adiv mared soam saut sA «««
24 Julho 2009
Sol Mata Lua
A cor laranja instala-se no horizonte,
Um poste brilha para a janela. Poente electro-solar.
A guitarra toca dentro de ti. O fumo sobe aos olhos.
Uma televisão fala para o vazio. Retalhos de uma cultura.
Duas cidades. Uma fronteira. Um pé balança.
O mar da terra; Paralelos, cal, história e sombra.
Gruas, sinais de trânsito, alcatrão, relógio e vazio.
Caixas de coisas. Tuas.
Objectos confusos e comuns. Desprezados no dia. Vitais quando a cor é laranja.
As aranhas tecem-me a ti. Fiel orgulhoso e relutante destino.
Ela toca, áspera, o que sei que os meus ouvidos merecem ouvir.
Distorcendo-me no teu som, embebedas-me o sol que me falta.
Resumes-me a paralelos e sombra. Gruas e vazio.
Queria ouvir os cânticos. Sentir a porta do frigorífico a abrir-se.
Caminhar para a janela mais próxima escancará-la e congelar o mundo.
Uma fracção de tempo. Num espaço contido.
Estradas e árvores; casas e pátios; tapetes e mobílias; instrumentos e corpos.
Observar nada, sentir nada, abraçar nada.
Depois hão-de vir:
Animais.
Cabeças de mamíferos em corpo de réptil. Garras em patas de ave.
Incólumes lambem, esfregam, aquecem.
Os corpos. Calor. Transmutação do gelo.
Água escorre.
Os animais lambem. Os corpos aquecem.
Relâmpagos.
Tudo volta ao normal.
Acordar.
24 Set 2008
Sol Mata Lua.
Estrada que se ergue perante pés que se estreiam no torpor dos dias que hão-de vir, numa caminhada de alma lavada e decididA.
O risco e a incerteza encrostados no peito como emblemas de lutas por travar, existem sem medO.
Ao longe a esperança e a curva no caminhO.
Para lá da curva o sonho tornado realidadE.
Para cá da curva um portão que se fecha nas memórias da alegria insatisfeita dos dias passadoS.
O dissabor da chave perra esventrando pela minha mão a alma do portão que agora fecho, há-de trazer-me o rubor da satisfação e um caminho livre na busca de um tesouro escondidO... Um recomeçO
Um novo portão se há-se abriR. Um novo portão se vai abriR… Um novo portão se está a abriR... entro e...
Set. 2008.
Sol Mata Lua.
É com as palavras de outrém que abro este livro que trago no peito.
Este é o poema da minha vida e é dele que procuro todos os dias
beber a sabedoria que me dá força e alento para trilhar o meu caminho...
Sol Mata Lua.
"As coisas melhores são feitas no ar,
Andar nas nuvens,
Devanear,
Voar,
Sonhar,
Falar no ar,
Fazer castelos no ar
E ir lá para dentro morar,
Ou então estar em qualquer sítio só a estar,
A respiração a respirar,
O coração a pulsar,
O sangue a sangrar,
A imaginação a imaginar,
Os olhos a olhar (embora sem ver)
E ficar muito quietinho a ser,
Os tecidos a tecer,
Os cabelos a crescer.
E isto tudo a saber que isto tudo está a acontecer!
As coisas melhores são de ar
Só é preciso abrir os olhos e olhar, basta respirar!"
Manuel António Pina.