Um poste brilha para a janela. Poente electro-solar.
A guitarra toca dentro de ti. O fumo sobe aos olhos.
Uma televisão fala para o vazio. Retalhos de uma cultura.
Duas cidades. Uma fronteira. Um pé balança.
O mar da terra; Paralelos, cal, história e sombra.
Gruas, sinais de trânsito, alcatrão, relógio e vazio.
Caixas de coisas. Tuas.
Objectos confusos e comuns. Desprezados no dia. Vitais quando a cor é laranja.
As aranhas tecem-me a ti. Fiel orgulhoso e relutante destino.
Ela toca, áspera, o que sei que os meus ouvidos merecem ouvir.
Distorcendo-me no teu som, embebedas-me o sol que me falta.
Resumes-me a paralelos e sombra. Gruas e vazio.
Queria ouvir os cânticos. Sentir a porta do frigorífico a abrir-se.
Caminhar para a janela mais próxima escancará-la e congelar o mundo.
Uma fracção de tempo. Num espaço contido.
Estradas e árvores; casas e pátios; tapetes e mobílias; instrumentos e corpos.
Observar nada, sentir nada, abraçar nada.
Depois hão-de vir:
Animais.
Cabeças de mamíferos em corpo de réptil. Garras em patas de ave.
Incólumes lambem, esfregam, aquecem.
Os corpos. Calor. Transmutação do gelo.
Água escorre.
Os animais lambem. Os corpos aquecem.
Relâmpagos.
Tudo volta ao normal.
Acordar.

24 Set 2008
Sol Mata Lua.
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