Nas ruas, a divindade estava em si e o poder de parar o tempo acompanhava-o passo após passo. Sem caminhar mais um centímetro que fosse – parou. Libertou do peito a mala que carregava a tiracolo, repleta de preocupações e papéis que o prendiam a um mundo rápido de consumo, alheio à razão da existência.
Sem desistir, desprendeu os braços de movimentos autómatos e deixando-os pender ao longo do corpo – observou o mundo que o rodeava. As pessoas, os carros, as luzes de néon. Fechou os olhos, ergueu os braços e escutou. Motores, murmúrios de gente que passa, pregões e a ligeira brisa que arrasta o lixo no chão.
Abriu os braços ao céus, libertou o corpo e vestiu a sua divindade – o tempo parou… em círculos em seu redor o mundo era rápido – mas ao centro de si apenas imperava o marfim parado do tempo.
Os sons aumentaram de volume, as luzes iluminaram a presença de um par de olhos fechados… depois, o silêncio.
A chuva começou a cair e enquanto em seu redor todos corriam para se abrigar, no centro da rua todo ficou imóvel.
Sozinho, sentiu lentamente cada gota de chuva demorar mil e um anos a descer até lhe tocar na pele. Lentamente o céu desfez-se em transparente líquido e uma após uma, cada gota de céu lavou-lhe o corpo e a alma parada – quedou-se no centro da rua, no centro do tempo, no centro de si.

2010
Sol Mata Lua.
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