terça-feira, 2 de novembro de 2010

EntrE oS arcoS doS teusS lábioS.

A noite instalou-se como favas que se descascam e aquecem na fervura de uma água que se engrossa tardia e lentamente.
Palavras, com sabor a menta, vinagre, nicotina e vinho que nos Dão e nos bebe boca a dentro, para que espírito fora os seres se libertem e se revelem, brotam por entre o crepitar da madeira e do metal que nos forra e sustenta.
As mãos marcam-se com X e actos de intuição. Truques na brasa e na cinza de mais um tronco que arde numa fogueira que se alimenta de dois e de muitos mais, nunca demais.
A caixa ressonante, encostada ao peito, costura acordes que se misturam com palavras que se falam, se cantam, se calam e se sentem.
A meia-luz, a mão que me toca, mostra-se de mulher e em mais um trago o meu corpo rouba o calor da fogueira que começa a querer desistir de arder. Um outro fogo renasce... em mim.
Sinto-me nela, num sono e num sonho que me inundou a vida sem arrependimento. Os olhos alcoolizados tomaram o seu corpo no meu, sem aspiração de que este salto entre os arcos da ponte que a atravessam se torne real.
Queria sentir a profundidade do leito do rio que nela corre, o gemido sibilino das suas águas escavar a pedra do meu corpo horas a fio. Acordar no carinho e calor do seu areal. Naufrago nas suas margens.
Numa guerra de sonos napoleónicos e trilhos romanos aspirando a bênção de Baco adormeço sozinho - esqueço-me de mim e do mundo.
Acordo entre patos soltos e peles de coelho, no meio de um dia demasiado súbito e vespertino. Adormeço uma vez mais - desta vez em ti, agora que estamos acordados e regressaste.
Deixo que a boca cale as palavras e sinto o sabor dos arcos que despontam das margens dos teus lábios.
Girona
28 Abril 2009
Sol Mata Lua.

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