Era Junho e o santo posto no altar era São Pedro. Nessa tarde vendia o que me escorre das mãos na Rua mais Direita da cidade onde moro. Por todo o lado escutavam-se vozes entoar palavras com sabor a África e Oriente, misturando-se com os cânticos tradicionais da gente serrana que me viu nascer e crescer de menino a homem.
Abandonei por minutos a minha arte à solidão das pessoas que cruzavam a rua e divaguei por entre elas.
No caminho de regresso passei por Ele... dei-lhe a mão ao dorso e senti o seu pêlo escorrer pelos meus dedos. Aquele consolo macio na mão tocou-me na alma e sorri. És doce, disse-lhe na forma mais terna e sincera possível.
Voltei para o meu mundo de arames de cobre e prata, de folhas de alumínio e chapa zincada, vidros e missangas.
Chegara a vez dele passar por mim... Olhava perdidamente toda e cada uma das pessoas nos olhos, como se lhes quisesse dizer algo. Daí a nada alguém, de passo lento e com o coração mais acelerado do que as pernas lhe permitiam, alvoroçava-se em torno Dele como uma nuvem de pássaros debicando a sua atenção. Queria alimentá-lo.
Foi aí que percebi que ninguém lhe tinha dado um nome, uma taça de comida ou água, afecto, campos para correr livre e uma morada para a qual regressar quando a hora se fizesse tardia e o cansaço lhe consumisse o corpo.
Nesse momento, em frente à Capela que dá o nome ao santo e que se faz Nova ao final do mês de Junho, quis tê-lo para mim... O galope da paixão inflamou o meu coração, as mãos ardiam com vontade de o afagar e os meus olhos nos dele tinham vontade de se diluir em carinho. Num rompante enlacei as nossas vidas pelo mais resistente junco e trouxe-o para a casa que se tornou sua.
Adormeceu envolto pelo céu estrelado da noite que se fez longa e chegada a manhã renasceu - de nome Pedro, em homenagem a alegoria religiosa e com morada certa no bilhete de identidade do reino animal.
Os dias foram passando e o laço de junco apertou os nossos corpos num abraço entre homem e animal cada vez mais profundo. Entre caminhadas à beira do Rio que Corre e seguindo os trilhos da Raposa nos pinhais que outrora se escureciam pelo vapor dos comboios aprendemos a falar a língua um do outro até que... começamos a falar o nosso próprio código... vocal, corporal e intensamente emocional.
Dez. 2009
Sol Mata Lua.

Sem comentários:
Enviar um comentário